terça-feira, 19 de julho de 2016

Por que a Escola Sem Partido é uma farsa e deve ser combatida

A educação escolar é o novo alvo da batalha ideológica que tomou conta do Brasil nos últimos tempos. Projetos baseados no movimento Escola Sem Partido, que defende, dentre outros pontos, o fim da doutrinação política e ideológica nas escolas, tomaram conta das casas legislativas do país. O Congresso conservador já conseguiu banir o termo "gênero" do Plano Nacional de Educação e, agora, tenta impor uma espécie de "escola sem educação", disfarçada pela suposta imposição do pensamento esquerdista aos estudantes.


Os defensores da Escola Sem Partido acreditam que o professor, quando comenta questões da atualidade em sala de aula, está impondo ao aluno o seu pensamento. Na verdade, é impossível fazer reflexões acerca dos conteúdos, sobretudo em história, filosofia e sociologia, ignorando os fatos do presente. Cercear o debate, inclusive o político, é promover uma desconexão da instituição escolar das questões sociais.

Renato Janine Ribeiro, professor de Ética da Universidade de São Paulo (USP), crê que projetos como esse se assemelham à censura e ao autoritarismo, pois é uma tentativa de criminalizar a atuação dos professores. Afirma o filósofo:

O professor não pode fazer doutrinação em sala de aula, acho que isso é básico. O que ele tem de ensinar é que na ciência, no conhecimento, você tem posições conflitantes, que não há um acordo entre todos diante de determinados assuntos. Os dois lados têm de ser ensinados. O que preocupa na iniciativa da Escola Sem Partido é que ele chega ao ponto de questionar a própria transmissão dos saberes na medida em que diz que os conhecimentos que possam contestar os valores da família do estudante não deveriam ensinados. A escola é um espaço de reflexão, então não pode haver cerceamento do direito do aluno de aprender.

Os incisos II e III do art. 206 da Constituição Federal estabelecem dois princípios a serem seguidos pelo ensino: a) liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; e b) pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino. 

O Ministério Público Federal (MPF) já encaminhou nota técnica ao Legislativo apontando a inconstitucionalidade da Escola Sem Partido. No entendimento da Procuradoria, sob pretexto de defender princípios como a "neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado" (art. 1º, I), além do pluralismo de ideias no ambiente acadêmico (art. 1º, II), o projeto coloca o professor em uma condição de constante vigilância, limitando sua liberdade.

Outra disposição que causa discórdia, por seu caráter autoritário, prevê o "o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções" (art. 1º, VII). Assim, em uma situação hipotética, ao ensinar o evolucionismo, o professor estaria afrontando as convicções morais dos pais, que acreditam no criacionismo.

O fato é que há professores de esquerda, de direita, mal e bem intencionados. Cabe aos alunos, pais e responsáveis, a capacidade de filtragem, para que aquilo que é dito pelo professor não seja aceito como verdade absoluta, mas sim parte da construção do conhecimento, a qual envolve, inclusive, a aceitação de ideias contrárias. A Escola Sem Partido não contribui para o combate da doutrinação, pelo contrário, é uma desculpa de conservadores para impôr leis que censurem o diálogo e perpetuem a moral cristã. Nesse sentido, o projeto deve ser combatido, pois, ao cercear a liberdade de ensino, fere também a pluralidade de ideias.

Por Arthur Lodi

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